A certeza de que daria certo

Durante boa parte da vida, Andréia carregou uma certeza: seria bem-sucedida em tudo o que decidisse fazer. E talvez tenha sido justamente essa convicção, alimentada por décadas de conquistas, que a impediu de reconhecer quando as coisas não estavam indo como deveriam.

Foram 23 anos dedicados à medicina.
Andréia chegou ao topo da carreira acadêmica como professora titular, chefiou um serviço de cardiologia, manteve seu consultório e presidiu a Sociedade Mineira de Cardiologia.

Quando decidiu deixar a medicina, fez algo que poucos se arriscariam a tentar: começou outra carreira e chegou à diretoria de uma unidade de negócios de uma multinacional, respondendo diretamente à presidência.

Andréia conhecia o peso das decisões difíceis e o sabor de vê-las dar certo. Até que, em 2016, dois acidentes a deixaram praticamente um ano de cama.
Pela primeira vez em muito tempo, a questão deixou de ser até onde conseguiria chegar profissionalmente e ela começou a se perguntar quanto da própria vida ainda estava disposta a entregar ao trabalho.

Em 2017, decidiu trocar o ambiente corporativo por uma cidade praiana.
Queria viver perto do mar, longe das disputas profissionais e aproveitar mais a vida. Empreender no mercado de sorbês parecia combinar com essa nova fase.

Só que Andréia não se contentou em abrir apenas uma sorveteria…

Acostumada a construir coisas grandes, montou uma distribuidora para abastecer toda a Região Sul do Brasil, investiu numa enorme câmara fria e organizou o transporte de toneladas de sorvete. Contratou uma equipe numerosa para oferecer um atendimento impecável.
A sorveteria seria apenas a vitrine daquela operação.

Quando procurava uma rotina mais leve, Andréia acabara de construir um empreendimento que exigiria capital, logística e uma rotina bem agitada.

Ainda assim, ela tinha certeza de que faria dar certo. Acreditava na qualidade do produto e acelerou os preparativos para inaugurar em dezembro, quando chegavam os turistas.

Conseguiu abrir numa sexta-feira… mas não teria sequer um fim de semana inteiro para descobrir como o público receberia a novidade.

Naquela primeira noite, uma tempestade atingiu a cidade com força suficiente para provocar alagamentos e arrancar telhados pela cidade.
O da sorveteria de Andréia foi um deles.

Depois de meses de preparativos, precisou gastar novamente para reconstruir o que acabara de inaugurar. A obra custou caro e manteve o estabelecimento fechado por mais 15 dias em plena temporada.
Enquanto a cidade recebia os visitantes, sua sorveteria acumulava despesas sem sequer ter testado sua capacidade de faturamento.

E aquele não seria o único verão que sairia diferente dos seus planos...

A conta de continuar

Quando a sorveteria reabriu, Andréia ainda precisava do movimento do verão para sustentar a distribuidora. Só que o clima continuou desfavorável, os clientes não vieram na quantidade esperada e a receita ficou longe de acompanhar o tamanho da operação. A câmara fria precisava funcionar, os produtos continuavam vindo e havia uma equipe inteira para pagar.

Andréia começou a cobrir a diferença com dinheiro próprio, acreditando que atravessava uma fase ruim. Mas os meses passaram, as vendas não acompanharam os custos e os aportes se tornaram recorrentes.

Para continuar pagando as contas da empresa, precisou buscar outra fonte de renda: voltou ao mundo corporativo, justamente aquele do qual havia decidido se afastar para ter uma vida mais tranquila.

Passou a trabalhar durante a semana em São Paulo e, todas as sextas-feiras, viajava para acompanhar a operação. Aos domingos, retornava de madrugada, porque na segunda-feira precisava estar novamente no trabalho que agora financiava seu empreendimento.

E, embora aquela rotina já fosse o oposto do que havia imaginado, Andréia continuava acreditando que conseguiria recuperar o negócio.

Com o movimento insuficiente, moradores do bairro começaram a pedir almoço. Andréia concordou, e a sorveteria sofisticada, criada para apresentar os produtos de uma distribuidora regional, passou a vender refeições executivas.

Hoje, Andréia reconhece que, ao final do primeiro ano, já deveria ter encerrado a operação. Na época, cada dificuldade ainda parecia algo que poderia corrigir com mais esforço ou dinheiro. Havia atravessado mudanças de carreira que muitos profissionais sequer ousariam enfrentar e prosperado em todas.
Por que aquela seria diferente?

A operação durou aproximadamente 2 anos.
Quando terminou, Andréia havia perdido 5 apartamentos. Estima que o prejuízo tenha alcançado alguns milhões de reais e, depois de tudo, ainda restavam cerca de R$ 500 mil em dívidas.

Eram bens conquistados ao longo de décadas na medicina e na carreira corporativa. Ao tentar construir uma vida em que pudesse trabalhar menos e aproveitar mais, Andréia havia comprometido o próprio patrimônio.

Mas ela conta que reconhecer o prejuízo financeiro foi a parte mais fácil. Sabia que teria dívidas para pagar e que precisaria trabalhar muito para se reorganizar.
A dificuldade maior era entender quem havia se tornado depois daquela experiência.

Por décadas, sua trajetória lhe dera uma resposta segura: era a médica que chegara à presidência de uma sociedade de cardiologia e a executiva que havia conquistado uma diretoria. Depois da sorveteria, até essas conquistas passaram a ser questionadas por ela.

Andréia se sentia uma impostora. Se não conseguira manter aquele negócio, como saber se seus sucessos anteriores tinham sido realmente fruto da sua competência?

Ela buscou respostas em mentorias e no autoconhecimento, até que um mentor recomendou uma imersão no Vale do Silício.
Andréia questionou o conselho… já havia morado na Califórnia e, sobretudo, não tinha dinheiro para viajar.

O mentor lembrou que ela havia procurado sua orientação, mas a decisão de segui-la cabia a ela. Mesmo endividada, Andréia contraiu outro empréstimo e foi.

Lá, encontrou pessoas entre as quais sua disposição para mudar, empreender e assumir riscos não parecia um desvio. Começou a enxergar que havia cometido erros graves, mas que aquele fracasso não apagava as realizações anteriores. A experiência mudou a maneira como ela interpretava a si mesma.

Como descreveu depois, havia passado muito tempo "andando na tribo errada".

O encontro com aquele ambiente despertou seu interesse por inovação, futuro do trabalho e desenvolvimento de pessoas, abrindo caminho para sua atuação posterior com consultorias, mentorias e palestras.

O conselho

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"Cuidado com seu ego, porque é ele que nos derrota… ele nos engana e ele nos cega."

Para Andréia, a humildade é indispensável.
Uma trajetória de conquistas não significa estar preparado para todas as situações.
O ego pode nos convencer do contrário e dificultar o reconhecimento dos erros.

Outra disciplina é encarar os resultados como são, mesmo quando contrariam as expectativas. Planejar não basta: é preciso acompanhar as mudanças, confrontar os números com o esperado e reconhecer quando a estratégia já não se sustenta.

Para ela, aceitar um prejuízo menor é preferível a insistir até transformar uma perda administrável em um problema muito maior.

A terceira orientação está nas pessoas com quem escolhemos conviver.
Andréia valoriza a proximidade com empresários que já construíram negócios e enfrentaram crises, porque suas experiências podem oferecer aprendizados que não encontraríamos sozinhos.

Muitos empresários escondem dificuldades por acreditar que pedir ajuda demonstra incompetência. Andréia lembra que quem já enfrentou situações semelhantes tende a compreender melhor o problema e a compartilhar o que aprendeu.

Às vezes, para encontrar uma saída, é preciso ter com quem conversar sobre aquilo que ainda não conseguimos resolver.

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Há uma armadilha especialmente perigosa para empresários muito competentes: eles conseguem manter vivos negócios que talvez já devessem ter encerrado.

Andréia tinha experiência, patrimônio e capacidade de gerar renda. Quando a empresa não conseguiu se sustentar, foi ela quem passou a sustentá-la.
E isso esconde uma distinção importante: um negócio continuar funcionando não significa, necessariamente, que seja viável. Às vezes, significa apenas que seu fundador ainda consegue pagar para mantê-lo de pé.

Mas, para mim, a maior lição dessa história está em uma questão ainda mais profunda…

Andréia decidiu empreender porque queria uma vida mais tranquila, com tempo para aproveitar o que havia conquistado. Entretanto, montou uma operação complexa, com uma estrutura que exigia justamente aquilo de que desejava se afastar.

E fiquei pensando: se a distribuidora tivesse prosperado, será que ela teria conquistado a vida que foi buscar?

Essa é uma pergunta que raramente fazemos antes de empreender.
Avaliamos o potencial de mercado, o retorno financeiro e os riscos do investimento, mas nem sempre questionamos se o sucesso daquele negócio será compatível com a vida que desejamos construir.

Porque existe um risco que não aparece em nenhuma projeção financeira: o de construir, com enorme competência, um negócio que dá certo, mas nos aprisiona exatamente na vida da qual estávamos tentando sair.

Cris Andrade
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Andréia Assis é mentora executiva, palestrante, TEDx Speaker e autora de três livros, com foco em liderança e transformação profissional.

Conheça seu trabalho e acompanhe seus conteúdos:

P.S. Conhece algum empresário tão empenhado em fazer o negócio dar certo que talvez tenha esquecido por que começou? Compartilhe esta edição com ele. Às vezes, a história de outra pessoa nos faz enxergar aquilo que estamos ocupados demais para perceber.

Abraço,
Cris Andrade
The Equity

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Alquimista do Caos

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Se você se sente lúcido, mas travado, isso é pra você. Textos semanais pra quem cansou de entender tudo e não sair do lugar. Lucidez sem anestesia. ►Um email por semana ►Sem motivação vazia ►Sem fó...

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