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Davi sabia de uma coisa desde o início, e essa coisa deveria ter bastado.

O cara que convidou ele pra ser sócio já tinha dito, sem rodeio nenhum, que não gostava de ter sócios. Disse antes de qualquer contrato existir, antes de qualquer número ser discutido, quando ainda dava tempo de levantar da mesa e ir embora com a vida inteira intacta.

Davi ouviu, registrou e guardou aquela informação no mesmo lugar onde, meses depois, guardaria as 200 cotas ao portador que provavam que a empresa também era dele: numa gaveta do escritório.

As cotas e o aviso ficaram ali, juntos, quietos, até que os dois sumiram.

O sinal que ele leu e escolheu traduzir errado

Antes de tudo desmontar, Davi vivia a melhor fase da carreira. Consultoria tributária, recuperação de impostos, dinheiro entrando mais rápido do que ele conseguia planejar o que fazer com ele. Em poucos anos, tinha juntado o tipo de patrimônio que muda a forma como um cara se posiciona numa negociação.

Foi nessa fase que o amigo apareceu com o convite pra assumir a diretoria financeira de 2 empresas. Davi aceitou no mesmo dia, e quando abriu os livros entendeu o tamanho do problema: as 2 empresas estavam mortas por dentro, inviáveis em qualquer conta que se fizesse. A saída foi cortar equipe, fundir operações e montar uma empresa nova a partir do que ainda dava pra salvar.

E foi no meio dessa reconstrução, com as mãos ainda sujas do conserto, que veio o segundo convite, dessa vez pra ser sócio, não mais diretor.

A estrutura societária foi montada via offshore, naquela época quem segurava os títulos era o dono, porque as cotas não eram nominais.
Davi recebeu 200 cotas, guardou na gaveta do escritório e seguiu tocando a operação.

Até que o sócio pediu os papéis, disse que ia colocar tudo num cofre, que ficaria mais seguro. Davi tirou os documentos da gaveta, colocou na mão do cara e ficou olhando enquanto ele saía da sala com eles debaixo do braço.

Na hora, não sentiu nada, confiava naquele homem, trabalhava com ele todo dia, e na lógica de quem estava dentro da operação, entregar os papéis era gesto de parceria, não de risco.

E o aviso, claro, continuava existindo. Davi sabia que o sócio não gostava de sócios, porque o próprio já tinha falado, mas a frase que morava dentro dele há meses era mais forte que qualquer aviso:

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Comigo vai ser diferente, porque eu estou participando de tudo.

Ela ficou ali por 4 anos.

O dia em que a gaveta ficou vazia de vez

Davi entrou na reunião como quem entra em qualquer reunião, sentou, apoiou os braços na mesa e esperou.

O sócio foi direto:

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"Eu não quero ter sócio. Quero ficar sozinho."

A mandíbula de Davi travou, mas a cabeça ainda funcionava. Se o cara queria sair, tinha solução:

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"Tudo bem. Compra a minha parte."

"Que parte? A empresa não vale nada."

Davi sentiu o peso da cadeira mudar embaixo dele, como se o móvel tivesse ficado mais duro, e tentou o caminho inverso:

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"Se não vale nada, eu compro a sua... fico com ela."

"A minha parte vale 20 milhões."

"Eu compro… pago o valor corrigido de hoje, você parcela e eu pago."

"Não, eu quero à vista."

"Você sabe que eu não tenho 20 milhões pra te dar à vista."

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