Davi sabia de uma coisa desde o início.
O homem que o havia convidado para ser seu sócio não gostava de ter sócios.
Sabia porque ele já havia dito.
Ainda assim, Davi acreditou que, daquela vez, seria diferente.
Essa convicção lhe custaria, em valores atualizados, cerca de 40 milhões de reais.
Mas o dinheiro não seria a parte mais cara da história.

O Sinal Ignorado

Antes de tudo acontecer, Davi vivia um dos períodos financeiramente mais prósperos de sua trajetória profissional. Trabalhava como consultor tributário, numa época em que a recuperação de impostos gerava ganhos expressivos.
Foi um período de muito trabalho, dedicação e resultado.
E o resultado veio.
Davi conseguiu acumular uma quantidade significativa de dinheiro.

Foi justamente nessa fase que recebeu um convite de um amigo.
O amigo possuía 2 empresas e queria que ele assumisse a diretoria financeira das operações.
Ele aceitou prontamente.

Quando entrou nos negócios, porém, encontrou uma situação delicada.
As 2 empresas estavam profundamente comprometidas financeiramente.
Economicamente, eram inviáveis, então era preciso agir.

A decisão foi unir o que ainda podia ser preservado.
Das 2 empresas, fariam uma.
Mantiveram os ativos possíveis, reestruturaram a folha de pagamento, reduziram o número de colaboradores e criaram uma nova operação.

Durante esse processo, veio um segundo convite.
Desta vez, não para ser diretor, mas para ser sócio.
E ele aceitou novamente.

A estrutura societária foi montada por meio de offshore e Davi recebeu 200 cotas que representavam sua propriedade.
Ele as guardou na gaveta de seu escritório.
Na época, o portador das cotas era o dono delas, pois não eram nominais.

Em determinado momento, o sócio pediu os papéis sob a justificativa de guardá-los em um cofre.
Davi concordou.
Não enxergou aquilo como risco, mas como confiança.

Afinal, não estava lidando com um desconhecido.
Era alguém com quem já trabalhava, participava diretamente da operação e, na visão de Davi, havia entre eles um laço forte.

Por isso, entregou os documentos e seguiu em frente.

Havia apenas um detalhe… um detalhe que ele conhecia:
seu sócio não gostava de sócios.

Isso já havia sido dito… ele sabia.

Mas uma frase começou a se formar silenciosamente em sua cabeça:
comigo vai ser diferente.

Davi estava envolvido na empresa, participava da gestão e havia confiança.
Na lógica dele, aquilo bastava.

O Preço da Confiança

4 anos se passaram dentro daquela sociedade, até que veio a reunião.

Ele entrou sem imaginar que sairia dali diante de uma realidade completamente diferente da que acreditava existir.

Seu sócio foi direto:

“Eu não quero ter um sócio, quero ficar sozinho.”

Por alguns instantes, a frase pareceu dura, mas administrável.

Na cabeça de Davi, havia uma solução simples:

“Tudo bem, então compra a minha parte.”

A resposta surgiu rápida:

“Que parte? A empresa não vale nada.”

O tom da conversa mudou…

Mas se a empresa não valia nada, havia uma solução igualmente simples na mente de Davi:

“Então eu compro a sua parte, já que não vale nada, eu fico com ela.”

Foi aí que a lógica parou de fazer sentido.

A resposta veio como uma faca:

“A minha parte vale 20 milhões.”

Um breve silêncio se fez na sala…

Davi olhava para aquele homem, incrédulo com o valor, mas não recusou:

“Eu compro, pago o valor corrigido de hoje, você parcela e eu te pago.”

Mas não havia espaço para negociação:

“Não... eu quero à vista.”

Davi não tinha 20 milhões disponíveis naquele momento..

“Você sabe que eu não tenho 20 milhões para te dar à vista…”

A contradição era impossível de ignorar.

Quando se falava na participação de Davi, a empresa não valia nada.
Quando se falava na participação do sócio, ela valia 20 milhões.

Mas havia algo ainda mais grave.
Os documentos que representavam a posição de Davi na sociedade já não estavam com ele…
Ele próprio os havia entregado.

Naquele momento, a reunião deixou de ser apenas uma discussão entre sócios e virou o instante em que ele percebeu o tamanho da exposição em que havia se colocado.

A sociedade acabou.
E ele não tinha em mãos aquilo que o protegeria.
Perdeu tudo…

Olhando para trás, o erro parecia brutalmente simples:
primeiro, confiar; depois, colocar nas mãos do próprio sócio os documentos relacionados à posse da empresa.

Mas houve um erro anterior aos dois:

Ignorar o sinal…

Ele sabia que o sócio não gostava de sócios.

Só acreditou que, com ele, seria diferente.

O prejuízo financeiro, corrigido para valores atuais, chegaria a aproximadamente 40 milhões de reais.

Mas a conta verdadeira não cabia em dinheiro…

A perda atingiu sua saúde mental, sua vida financeira, sua forma de enxergar as pessoas e, segundo ele próprio, até sua dimensão espiritual.

Depois daquilo, Davi passou a acreditar menos…

Nas coisas.
Nas relações.
Nas pessoas.

Quando percebeu o tamanho do estrago, não havia apenas um patrimônio perdido.
Havia uma vida que precisava ser reorganizada.

Então veio uma pergunta muito mais difícil do que qualquer discussão societária:

Como recomeçar?
Onde?
Com quem?

Ele decidiu voltar para Curitiba, pois tinha um imóvel na cidade e acreditava que, pelo menos, aquilo estava preservado.
Chegou não como quem volta vitorioso, mas como quem precisava reconstruir.

E é justamente em Curitiba que uma das imagens mais fortes daquele período permaneceu em sua memória.

Davi estava na Praça Osório…

Depois de ter trabalhado com consultoria tributária, participado da gestão de empresas e acumulado um patrimônio significativo, agora atuava como representante comercial de indústrias ligadas ao setor de confecção.

Vendia entretela, zíper, linha, fio, velcro, forros importados para vestuário de alfaiataria…
Carregava os mostruários em uma pequena mala laranja da Benetton.
Foi com essa mala que estava na Praça Osório quando sentiu um mal-estar.

Ele parou. Olhou para a própria situação. E então veio o pensamento:

“Eu não precisava estar aqui…”

Não precisava estar recomeçando daquele jeito…
Não precisava estar carregando mostruários, tentando reconstruir o que um dia já tinha conquistado…

Naquele momento, colocou a culpa em si mesmo.
Achou que havia sido inocente, pouco precavido e que havia confiado demais.

A imagem da mala, da praça e daquela nova vida tornou concreta uma perda que, até então, ainda estava misturada a números, documentos e lembranças.

Mas havia algo que o dinheiro não podia devolver: o tempo.

Como ele mesmo costuma dizer:

“Tinha menos tempo para viver do que o tempo que já havia vivido.”

Com o passar dos anos, as coisas se normalizaram.
Mas nem tudo voltou ao lugar.
Uma parte dele mudou definitivamente… a confiança.

Depois daquela experiência, tornou-se muito mais difícil confiar plenamente em alguém.
Ainda confia, mas sempre com reserva.

Também mudou sua maneira de viver.
Passou a se preocupar menos com o que os outros pensavam de suas decisões e a viver de acordo com sua própria medida.

Para ele, aquela experiência rompeu algo, mas também cristalizou um princípio.

O Conselho

Hoje, quando Davi pensa no que diria a outro empresário, a resposta vem com a força de quem aprendeu da maneira mais cara possível.

Proteja-se…
Tome todas as medidas legais cabíveis para resguardar sua vida, seu patrimônio, sua família e sua saúde mental.

Observe os sinais…
Não ignore aquilo que já está diante dos seus olhos.

Cerque-se de bons advogados.
Tenha consultores empresariais capazes de enxergar o negócio com clareza e conte com uma equipe de planejamento tributário competente.

Não cuide apenas do faturamento.
Lembre-se das responsabilidades.

E, principalmente:
documente tudo.

O que for combinado, escreva.
O que for decidido, coloque no papel.
Colete assinaturas, registre, guarde, formalize.

Use todos os meios legais disponíveis para preservar aquilo que construiu.
Porque confiança, por mais forte que pareça, não substitui proteção.

Ele aprendeu isso depois de perder uma quantia considerável.

Mas talvez a maior perda tenha sido descobrir, tarde demais, que havia ignorado um aviso que conhecia desde o começo.
Ele sabia…
Só acreditou que, com ele, seria diferente.

Infelizmente, não foi.

Depois de escrever esta história dolorosa do Davi, eu quero trazer 2 pontos que acho de extrema importância e que estão implícitos nesse caso:

O primeiro é que o maior risco não está no sinal que você não vê, mas naquele que você vê e decide reinterpretar porque quer acreditar que, com você, será diferente. Esse é um erro silencioso: a evidência continua ali, mas a nossa proximidade com a situação cria uma exceção emocional. E, muitas vezes, é exatamente essa exceção que nos coloca em risco.

O segundo é que confiança não é o problema. O problema é quando ela começa a substituir estrutura, contrato, proteção e governança. Bons relacionamentos não eliminam a necessidade de bons acordos. As relações podem ser humanas, próximas e verdadeiras; negócios, ainda assim, precisam continuar sendo profissionais.

P.S. Se você conhece um empresário que pode se beneficiar desta história, encaminhe esta edição para ele. Às vezes, uma experiência compartilhada no momento certo evita um erro que custaria anos.

P.S.2. Algumas experiências custam caro demais para terminar apenas como aprendizado pessoal. Se você viveu uma história que pode encurtar o caminho de outro empresário, responda este e-mail. Talvez transformar essa experiência em alerta, aprendizado ou direção seja uma das formas mais valiosas de legado.

Abraço,

Cris Andrade
The Equity

Davi Albuquerque é fundador da Albuquerque & Haro Consultoria Empresarial, que atua com Consultoria para o Ramo de Hotelaria desde 2023.
Ele atua como Agente gerador de resultados econômicos, financeiros, operacionais e estruturais na hotelaria.

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